Maurício Targino
5 min readApr 23, 2024
Foto: Leonardo Sette

Bruno está morto. E chegará morto ao final desta história. Mas ela começa muito antes de o juiz apitar o início da partida.

Bruno foi embora da cidade aos 23 anos, sem olhar para trás e antes de existirem redes sociais e sem, digamos, endereço fixo para correspondência.

Mas gostava de futebol o suficiente para se dizer torcedor. Não de estádio, até porque estádios não são tão abundantes na Amazônia, onde Bruno escolheu viver. E morreu.

Esta história começa no arquipélago de Bailique, no Amapá. De lá até Macapá, capital do estado, são 12 horas de barco. Tempo mais do que suficiente para pensar na vida. Quando se começa a pensar na vida é porque a morte está cada vez mais próxima.

Desde que aquele maldito governo começou, Bruno foi afastado de seu emprego público. O trabalho envolve afastar garimpeiros, pescadores ilegais e outros foras-da-lei de territórios indígenas. Mesmo assim, não parou de trabalhar.

Bruno viajou de Bailique a Macapá porque precisa ir até Manaus de avião. Mas não pode ir ao aeroporto, pois não tem documentos para viajar em voo comercial. Vai a Manaus justamente para resolver esse problema e outros maiores.

Desembarcou em Macapá quando já era noite. O Cessna Grand Caravan vai decolar da pista do Aeroporto Alberto Alcolumbre em algum momento entre as 2 e as 4 da manhã.

Serão ao menos seis ou sete horas até o avião decolar. Depois, mais três horas de voo sem escalas até Manaus, desviando dos radares sempre que possível.

As instruções eram claras. Descer na Rampa do Santa Inês, caminhar até a Tiradentes com Antônio Coelho e tomar um ônibus até o Marco Zero do Equador, onde Tiago o esperava.

Tiago é professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal e ficará responsável por abrigar Bruno até 30 minutos antes da decolagem, que não deverá ocorrer antes das 2 da manhã.

Bruno desceu do ônibus no ponto combinado e Tiago prontamente o reconheceu. Parecia nervoso. Pediu que Bruno o acompanhasse até o carro. O plano mudou.

Estava certo que Bruno esperaria na sala de Tiago, famoso por trabalhar em suas pesquisas até alta madrugada. Mas o desaparecimento de dois alunos envolvidos com a causa indígena deixou a universidade sob vigilância.

Foi quando perceberam uma movimentação diante do Estádio Estadual Milton de Souza Corrêa, o Zerão, a alguns metros de onde estavam. Era noite de jogo.

Concordaram com um olhar e se dirigiram à bilheteria. Tiago se prontificou a comprar as entradas. Entregou o bilhete a Bruno, passaram na catraca como se não se conhecessem e só depois perceberam que não estavam sendo seguidos.

Foi quando o sistema de som anunciou as escalações do Trem e do Sport Recife, time de Bruno. Foi quando se deu conta que não ia a um estádio desde aquele 1x0 sobre o Mogi Mirim na Ilha do Retiro pela Série B de 2002. Gol de Juninho Goiano. Chovia.

O jogo de hoje foi mais fácil: Sport 4 a 0, com o apito final quase à meia-noite. Agora é ir ao carro de Tiago e rodar pela cidade até a hora do embarque clandestino para Manaus.

A uma 1h37 da manhã, Tiago atendeu seu celular, e dirigiu até uma entrada restrita do aeroporto. Bruno agradeceu, desceu do carro e foi recebido por um homem que parecia funcionário e o acompanhou.

Bruno foi levado no carrinho de bagagens até o avião e tudo deu certo com a decolagem, assim como o voo.

Em Manaus

Bruno desceu do avião usando uniforme da equipe de manutenção e caminhou até a saída auxiliar dos funcionários. Danilo estava à sua espera.

“Bem-vindo a Manaus, Bruno”, cumprimentou Danilo pedindo que o acompanhasse até o carro. Após tomarem seus lugares, Danilo entregou um envelope a Bruno e deu a partida.

“Tem um documento de identidade, cartões de crédito e débito e algum dinheiro em espécie”, disse Danilo. “Esta mala no banco de trás tem roupas limpas. Creio que precise”.

“Neste período aqui em Manaus seu nome será Leonardo Sette Pereira da Silva”, continuou Danilo. “Tem uma reserva neste nome para você no hotel onde vou te deixar”.

Bruno riu de agora ter como o nome o do craque do Sport na década de 90 e como sobrenome o número da camisa dele. Preferiu guardar para si o motivo da risada.

Nas semanas seguintes, Bruno, ou melhor, Leonardo dormiu poucas vezes no tal hotel. Dia sim, outro também, pegava a estrada ou o rio para encontrar líderes indígenas da região.

No Dia dos Povos Indígenas, sexta-feira, Bruno encontrou-se ao final da tarde com Dominic, jornalista inglês que o acompanharia em uma viagem a comunidades ribeirinhas na manhã de domingo.

“E o que fazer no sábado em Manaus?”, perguntou em português Dominic.

Bruno se deu conta de que não havia reservado um dia de folga sequer desde que chegara a Manaus. “Faz pouco tempo que cheguei a Manaus e mal fico aqui”, respondeu.

“Vi que tem um jogo de futebol amanhã. Você gosta?”, perguntou Dominic.

“Sou brasileiro, esqueceu?”, respondeu com outra pergunta Bruno.

“Perfeito. Sei que você corre perigo, mas comigo você está seguro. Busco você no hotel amanhã às 16h”, disse Dominic. “Lembre-se que sou inglês.”

Bruno saiu do hotel às 15h58, no exato momento em que um táxi trazendo Dominic encostou. Àquela altura Bruno já sabia que o jogo era entre o Amazonas, equipe local, e seu querido Sport Recife. Pediu ao taxista que o deixassem no setor visitante.

“Awayday. It’s good news for the Blues”, riu Dominic.

Tal como em Macapá, não houve dificuldades para comprar ingressos. Diferente daquela vez, pediram documentos. Bruno sentiu um leve nervosismo ao apresentar sua identidade com o nome de Leonardo. E incômodo com a quantidade de câmeras de vigilância no estádio.

5 gols em 90 minutos mais acréscimos, alguns copos de cerveja, conversas amenas, lembranças de Dominic e seus tempos de Goodison Park, memórias de velhos clássicos em velhos estádios do Recife.

O Sport venceu por 3x2, Bruno e Dominic beberam uma última cerveja na saída e deixaram o estádio. Se fosse apenas sobre futebol, seria um final feliz.

Infelizmente, Bruno está morto. Dominic também.

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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes e lugares reais é mera coincidência.

Dedicado a Bruno Pereira (Bruno Cunha) e Dominic “Dom” Phillips por suas lutas permanentes pelos direitos indígenas.

Maurício Targino
Maurício Targino

Written by Maurício Targino

Pai de meninos, marido de mulher, limpador de caixa de areia de gatas e datilografista.

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