Não é sobre jazz, é jazz
Trilha Sonora para um Golpe de Estado inova na forma e no conteúdo
Uma das (poucas) coisas legais da Oscar é a possibilidade de ver no cinema filmes que provavelmente ficariam encostados em algum streaming, ou nem isso. Como Trilha Sonora para um Golpe de Estado, indicado na categoria Melhor Documentário.
A proposta é ousada: mostrar o envolvimento dos Estados Unidos e da Organização das Nações Unidas (ONU) no golpe militar a República Democrática do Congo, país que acabara de conquistar sua independência, e que levou ao assassinato do líder revolucionário e primeiro-ministro Patrice Lumumba.
Trata-se de uma história com múltiplas camadas que bem poderiam ser abordadas de maneira convencional e linear. Mas o diretor Johan Grimonprez resoveu seguir por um caminho mais original: contar a história como um improviso de jazz, com mudanças e variações de ritmo, inovação e experimentação.
Mais cinema: Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick
A escolha da estrutura tem fundamento: músicos de jazz foram usados como “cavalos de Tróia” em várias nações africanas durante o processo de descolonização. Por exemplo, o mesmo avião que levou Louis Armstrong, o “embaixador do jazz”, para se apresentar no Congo, também levou agentes da CIA entre seus passageiros. Sem o conhecimento do músico, claro.
Este fato em si já justificaria a realização de um filme. Mas o diretor Grimonprez vai além e aborda a colonização belga promovida pelo Rei Leopoldo II no Congo desde seu início, em meados da década de 1880, até a independência em 1960, sem perder de vista os dias atuais.
O cineasta belga afirmou em entrevista que jamais viu o assunto ser abordado em seus tempos de escola (ele nasceu em 1962, apenas dois anos após a independência do Congo) e buscou corrigir este erro histórico usando as única ferramenta possível: informação.
Uma abordagem pouco (ou nada) acadêmica
Informação é que não falta em Trilha Sonora para um Golpe de Estado. Ao longo de suas duas horas e meia, a possibilidade de o espectador se perder na história é grande.
A própria estrutura do documentário, com idas e vindas no tempo e no espaço, “vagando” entre África, Europa e Estados Unidos, favorece isso. Mas como não é uma aula de sociologia e sim um filme, a experiência revela-se pra lá de interessante.
Mais cinema: A Substância, com Demi Moore
Entre dezenas de depoimentos e imagens de arquivo, vários números de jazz. Além do já citado Louis Armstrong, o filme conta com performances e depoimentos de uma infinidade de estrelas como Max Roach, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, John Coltrane, Charles Mingus, Abbey Lincoln, Ornette Coleman, Mirian Makeba, Art Blakey e Nina Simone. Esta, por sinal, faz uma espécie de “freela” como espiã na trama.
A música, no entanto, é pano de fundo para a política. E ela também está representada por um “Dream Team”, para o bem e para o mal em Trilha Sonora para um Golpe de Estado: além de Patrice Lumumba, Malcolm X, Nikita Kruschev, Fidel Castro, Allen Dulles (Diretor da CIA), John F. Dulles (Secretário de Estado dos EUA), Dag Hammarskjöld (Secretário-Geral da ONU), Mobutu Sese Sesko (futuro ditador do Zaire, dentre outros.
Mesmo em meio a tantos fatos e personagens, o filme encontra espaço também para abordar em paralelo a luta pelos direitos civis da população afrodescendente nos Estados Unidos (com participação efetiva de grande parte dos músicos citados), além de mostrar como pouca coisa mudou no Congo em particular e no continente africano em geral desde então.
A exploração e opressão ganharam novas roupagens — ou não tão novas assim — e a África segue sem colher os frutos de uma independência que, na prática, nunca existiu de fato e parece cada dia mais distante.
Exatamente como suas antigas metrópoles, bem como a atual (os EUA) desejam. E, pior, sem um bom jazz.
Mais cinema: David Lynch Está Morto?
Mais cinema: Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa