Sem torcida todo jogo é pelada de firma
Futebol e torcida foi a maior história de amor que a humanidade conheceu, ao lado do amor de mãe, é claro.
Mas, ao contrário do amor de mãe, o romance entre futebol e torcida acabou. Para sempre. Que os envolvidos sigam em paz os seus caminhos.
O futebol é um cafajeste
Quem foi ao estádio, viu um jogo do seu time ou uma partida qualquer na TV com torcida entre o fim de semana de 7 e 8 de março e o GreNal da porrada na Libertadores 2020, terá lembranças vívidas desses momentos. Tal como a Geral do septuagenário Maracanã, não mais existem, nem voltarão.
Uma pandemia muda o mundo e o futebol não foge à regra. Mas, ao contrário do mundo, o futebol tinha a opção de parar. E não parou, mesmo tendo de sacrificar o que tinha de mais importante: a torcida.
Não bastava a cafajestagem de retornar em meio ao pior momento do planeta nos últimos 100 anos.
Tinha que ter alto-falantes reproduzindo som de torcida — com direito a uuuuu quando a bola passava perto e tudo — na Espanha.
Tinha que ter título do Napoli sobre a Juventus — uma das melhores coisas do futebol — com mosaico digital na arquibancada durante a transmissão em um estádio completamente vazio na Itália. E comemorado pela torcida nas ruas de Nápoles em meio a uma pandemia.
E tinha que ter Bayern campeão na Alemanha e David Luiz fazendo merda na Inglaterra, claro.
Só não tinha que ter Flamengo x Bangu no Maracanã ao lado de um hospital de campanha durante uma pandemia. Nem em estádio algum de um país que é o epicentro de uma pandemia.
Torcida serve para alguma coisa?
À torcida, pouco restou a fazer: exaltar lembranças de um passado nada distante, assistir jogos em estádios vazios pela TV ou simplesmente deixar de lado. Nada que se compare a estar no estádio, ou mesmo ver pela TV.
Torcida influencia tanto jogador quanto telespectador. Com ela no estádio, o jogo é outro.
Sem milhares nas arquibancadas para vê-lo, Cristiano Ronaldo seria um perna-de-pau pior do que o pior perna-de-pau que jogou no seu clube.
Sem torcida rival provocando, Romário teria marcado, se muito, 10% dos seus mil e poucos gols.
Sem torcida, o futebol é como a velha anedota do náufrago que encontra a Sharon Stone na ilha deserta*: que graça teria os gols de Maradona contra a Inglaterra (sobretudo o primeiro, que todo o mundo viu que foi de mão, menos o juiz) se o estádio estivesse vazio?
Talvez o futebol não morra sem a torcida. Mas sem ela todo jogo é pelada de firma.
Torcida também não morre. Algumas até se juntam pra descer porrada em fascista, que vale muito mais que torcer para um clube.
Sobretudo se o clube se alia com fascista.
*não reproduzida na íntegra por seu dispensável conteúdo machista