Sobre ratos, homens, vírus e outros bichos

Maurício Targino
2 min readApr 18, 2020

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O elefante teme o rato como o homem teme o vírus — ou ao menos deveria

Imagem: seeker.com

Todo mundo achava que os computadores iriam conectar totalmente o planeta. A internet aumentou a certeza disso. Ironia e duplo sentido de mãos dadas: o que de fato sacramentou a conexão global foi, veja só, um vírus.

Vírus. Um bichinho tão pequeno que muitos acham que sequer existe. E anda matando gente aos milhares mundo afora. Mas com potencial para matar milhões.

Gente. Seres humanos. A espécie dominante no planeta, que lhe trouxe o progresso tecnológico e a explosão populacional, tomando cacete de um bicho que nem microscópio consegue ver direito.

Bichos. Animais não humanos. Uns chegaram até antes da gente e estão por aí, nas reservas naturais ou sob as águas ou nas parcas terras ainda não exploradas pelo homem ou nos zoológicos. Outros, exterminamos do planeta.

Zoológicos. Nada mais estranho do que amar animais e zoológicos ao mesmo tempo. O que é um zoológico, um monumento à superioridade humana sobre outras espécies ou o último refúgio de muitas dessas espécies? Habitats destruídos, semelhantes devastados e alguns salvos ou escolhidos para viverem confinados e recebendo visitas de outros humanos.

Confinados. Assim caminha a humanidade em tempos de coronavírus. Privilegiados têm casa, alguns até um quintal ou um jardim. Até quem mora em apartamento às vezes tem a sorte de contar com uma varanda, tão subutilizada em um dia frio.

Frio. Penso na solidão dos ursos polares do Aquário de São Paulo. Graças aos zoológicos, é possível ver elefante em Belo Horizonte e urso polar em São Paulo. A latitude onde vive o elefante da Pampulha não está tão distante da latitude de sua Mãe África.

Distante. O casal de ursos polares do Ipiranga veio de muito longe, muitos graus de latitude acima e muitos graus temperatura abaixo. Só está vivo graças à tecnologia de resfriamento de sua gaiola e ao trabalho dos funcionários. Isso tem custo.

Custo. Custo que as visitas, suspensas em tempos de quarentena, confinamento e isolamento social, ajudavam a bancar. O casal de ursos polares não pode deixar o Aquário de São Paulo. Outros bichos de zoológico, sim. E disputar com os ratos os restos de alimentos na cidade.

Ratos. Os que vivem perto de restaurantes — ou dentro dos próprios — já não contam mais com os restos de comida de estabelecimentos impossibilitados de receber clientes. Alguns já apelam até para o canibalismo — inclusive dos próprios filhotes.

Filhotes. Eis o grande legado os seres humanos deixando para os seus: um planeta destroçado, literal e figurativamente. Como os pulmões de mais um morto pelo vírus.

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Written by Maurício Targino

Pai de meninos, marido de mulher, limpador de caixa de areia de gatas e datilografista.

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