Kasa Branca e o Direito de Sonhar
Uma pequena joia de simplicidade em tempos complexos
Logo nos primeiros segundos de Kasa Branca ouve-se, em off, o anúncio de um vendedor de doces: “Olha o sonho! Quem quer sonhar?”.
A primeira impressão é de que seja parte dos artifícios audiovisuais para situar o espectador no cenário do filme dirigido por Luciano Vidigal. As imagens e os sons transportam imediatamente para Chatuba, na Baixada Fluminense. No entanto, a frase diz bem mais que isso.
Kasa Branca parte de uma premissa simples: Dé (Big Jaum) mora em uma casa alugada e cuida de sua avó, Almerinda (Teca Barbosa), que está em estágio terminal da doença de Alzheimer. Ele sonha em dar um final de vida digno à idosa.
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Em meio a dificuldades para comprar os remédios e pagar o aluguel, Dé conta com a ajuda de seus amigos Adrianim (Ramon Francisco) e Martins (Diego Francisco).
O primeiro sonha em reconquistar a ex-namorada Talita (Gi Fernandes), que por sua vez sonha em ser reconhecida como cantora enquanto vive a dura realidade de uma mãe solo.
Martins, por sua vez, sonha em ter um rolo com Marcela (Ingrid Ranieri), esposa do dono da farmácia onde Dé compra os remédios da avó graças a Adrianim, que descobre da senha do cartão de Neide (Roberta Rodrigues), mãe de Adrianim, por quem Dé nutre uma paixão secreta.
Em torno desses pequenos sonhos e da dura realidade cotidiana, Luciano Vidigal constrói uma rede de afetos, alegrias e tristezas com um profundo respeito por seus personagens, sem deixar que nenhum deles caia na traiçoeira armadilha da autopiedade.
O que se vê na tela, pelo contrário, é um retrato sensível e realista da comunidade negra da periferia, livre de tons panfletários e denuncistas. Não por omissão ou alienação, apenas pelo fato de que a história não pede.
Kasa Branca foca naquilo que se propõe: contar uma história protagonizada por rostos, vozes e corpos historicamente colocados em posições de marginalidade ou subalternidade. E faz isso com simplicidade, honestidade e brilhantismo.
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Assim como na vida real, alguns sonhos dos personagens de Kasa Branca se concretizam, outros são frustrados, muitos seguem em aberto. E ao menos do lado de lá da tela, cada desfecho pode trazer um aprendizado. Cabe aos sonhadores fazer o que quiser com isso.
Para quem está do lado de cá, o aprendizado oferecido por Kasa Branca se soma ao de filmes recentes como Marte Um e O Dia que te Conheci: sim, o cinema brasileiro é capaz de contar histórias protagonizadas por afrodescendentes e moradores de periferia sem cair em representações e narrativas estereotipadas.
Ter mais produções como essas na grade de exibição dos cinemas do Brasil, no entanto, pode parecer um sonho um pouco mais distante. Para alguns, até uma utopia.
Só não se pode deixar de sonhar por causa disso.
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