Sérgio está morto e não aprendemos nada com isso

Maurício Targino
3 min readApr 16, 2024

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Manobra de Heimlich poderia ter salvado a vida de Sérgio

Sérgio passou mal em frente ao estádio Arena Pernambuco em 2024. Paulo Ricardo morreu ao lado do Estádio José do Rego Maciel, o Arruda, dez anos antes.

Sérgio estava indo ver o jogo do time dele, se engasgou e não tinha ninguém por perto para aplicar a manobra de Heimlich, utilizada quando alguém se engasga.

Alguns policiais até tentaram fazer, mas ela não exige uso de cassetete, gás de pimenta ou bala de borracha.

Quem sabia fazer estava na ambulância e o veículo demorou um pouco até chegar. E mais um pouco para levar Sérgio ao hospital, que ficava a pouco mais de 5 km dali, mas havia muito trânsito.

A Arena Pernambuco tem capacidade de 45 mil pessoas. 21 mil foram ao jogo entre Sport x Ceará.

Já Paulo Ricardo nem estava em jogo do time dele, mas do rival Santa Cruz. Estava de visitante na companhia de amigos torcedores do Paraná Clube. Quando saía do Estádio do Arruda, teve a cabeça estourada por um vaso sanitário atirado lá do alto.

O Arruda tem capacidade para 5 milhões de pessoas. Oito mil pagaram ingresso para ver Santa Cruz x Paraná Clube.

Sérgio morreu, sua foto rodou as redes sociais, seu nome foi lembrado em nota de pesar do clube, sua tragédia comoveu meio mundo de gente. Sérgio era um de nós.

Paulo Ricardo também morreu. Perdeu a vida e o nome. Virou o cara que teve a cabeça estourada por um vaso sanitário. Paulo Ricardo era um de nós. Será que era?

Paulo Ricardo andava com Torcida Organizada, inclusive no dia em que morreu. “Nós” somos contra Torcidas Organizadas porque dizem que elas atiram bombas em ônibus.

Paulo Ricardo não estava no atentado contra o ônibus do Fortaleza. Dizem que foi obra da Torcida Organizada com a qual Paulo Ricardo anda, mas ele não estava. Tinha morrido.

“Nós” não saímos de casa em uma sexta à noite pra ir ao Arruda ver Santa Cruz x Paraná em uma sexta à noite.

“Nós” só vamos a jogos do nosso time. 13 mil nos Aflitos, 38 mil no Arruda e dois recordes seguidos de público na Arena em dois empates sem gols. Torcida única é de boa.

“Nós” queremos estádios para as famílias (ricas) e livres de (pobres) marginais.

“Nós” queremos estádios para as famílias ricas e livres de pobres marginais.

Sérgio está morto, Paulo Ricardo também, e seguimos procurando culpados, como se a culpa não fosse relativa. Ao contrário da responsabilidade, que é absoluta.

Quem joga um vaso sanitário do alto de um estádio na cabeça de uma pessoa é culpado. Quem permitiu que a privada fosse arrancada é responsável.

Quem atira uma bomba dentro de um ônibus é culpado. Se quem deveria fazer a segurança do ônibus falhou, que assuma a responsabilidade.

Também é preciso ter responsabilidade com as palavras. Dizer “a torcida atirou bomba no ônibus da Fortaleza” é bem diferente de dizer “membros de uma torcida organizada atiraram bombas no ônibus do Fortaleza”.

“Nós” queremos o fim das Torcidas Organizadas ou a criminalização do torcedor de futebol? A resposta é: um, outro ou os dois, mas tentamos fingir que nenhum dos dois.

Mas “nós” propomos algumas soluções, como construir um estádio na esquina do cu do mundo com as botas de Judas ao invés de reformar os que existem.

“Nós” também temos proposta para minimizar os riscos de engasgamento: proibir os espetinhos e colocar algum MacDonald’s no lugar. Ou barracas de caldinho, que aí ninguém engasga mesmo.

Dez anos separam as mortes de Sérgio e de Paulo Ricardo. Em 2014, Recife tinha um time na Série A e dois na B. Em 2024, tem um na Série B, outro na C e um terceiro que não corre mais risco de rebaixamento, pois nem divisão nacional tem mais.

No Estádio dos Aflitos só cabe uma torcida, a Ilha do Retiro está interditada, a Arena Pernambuco é longe para cacete e se tudo continuar como está é capaz de o Estádio do Arruda cair.

Como o vaso sanitário na cabeça de Paulo Ricardo.

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Maurício Targino
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Written by Maurício Targino

Pai de meninos, marido de mulher, limpador de caixa de areia de gatas e datilografista.

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