A Substância que Corrói

Maurício Targino
3 min readFeb 7, 2025

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Divulgação

Filmes como A Substância, de Coralie Fargeat, bem que podiam ser precedidos por uma mensagem direcionada a espectadores do sexo masculino, algo do tipo:

“Apenas reflitam sobre o filme, não se metam a escrever sobre ele.”

Como esse aviso não apareceu, aqui está o texto que você começou a ler, ainda que sem muita certeza se irá até o final. A Substância pode ter esse mesmo efeito sobre pessoas mais sensíveis à medida em que é exibido.

A premissa simples: Elizabeth Sparkle (Demi Moore) já viveu dias melhores em Hollywood, mas soube recriar-se como estrela de um programa de aeróbica na TV, nos moldes da famosa série Workout, de Jane Fonda. A boa forma demonstrada na tela, no entanto, não supera o “empecilho” de sua idade.

Elizabeth pode ser linda, gostosa e carismática, mas o diretor do programa deseja alguém mais jovem para a atração televisiva, assim como o público — ao menos segundo ele.

Eis então que Elizabeth fica sabendo de um misterioso composto, a tal substância do título, capaz de criar “uma versão melhor de si mesma”, seja lá o que seja isso. Qualquer semelhança com filtros e efeitos do Instagram talvez não seja mera coincidência.

O “parto” da “versão melhorada” é visualmente repugnante e com forte potencial de espantar de maltratar espectadores de estômago (e psicológico) minimamente fragilizado. E ainda assim está longe do que vem a partir daí nas quase duas horas e meia de filme.

Para obter os efeitos desejados da fórmula, Elizabeth precisa de algo cada vez mais raro: equilíbrio. Semanas alternadas, 7 dias de versão “original” por 7 dias de versão “melhor”.

A versão “melhor” acaba ocupando vaga da “original” no programa de TV e logo começa a demandar mais substância, tal como redes sociais costumam tomar boa parte das vidas de seus usuários à medida que aumentam os likes e comentários.

As consequeências acabam surgindo tanto do lado de lá da tela quanto de cá. No filme, na forma de imagens cada vez mais repulsivas. Na vida real, ganhou até título de palavra do ano de 2024 segundo o dicionário Oxford: Brain Rot, ou podridão cerebral.

Redes sociais são a substância da vida real.

Dirty Magazine

Beleza, mas por que homens não deveriam escrever sobre o filme?

Por um motivo simples: homens jamais foram cobrados por idade e aparência como as mulheres são. Nunca tiveram sua competência colocada em detrimento de sua aparência.

Para os homens, pouco importa se é bonito ou feio, jovem ou velho, gordo ou magro, desde que se faça o que tem que ser feito, seja lá o que for.

Já as mulheres precisam ser bonitas, aparentar juventude e estar em boa forma para satisfazer aos padrões estéticos da sociedade. A competência geralmente é discutida depois do assédio de algum superior, geralmente um homem.

Não fosse pelas denúncias de assédio, José Mayer certamente seria galã de novela da Globo mesmo após os 70 anos, faria par romântico com alguma atriz com metade ou até um terço de sua idade.

Agora pare e pense em alguma história de amor protagonizada por Ana Maria Braga e Chay Suede. Não um amor que envolva laços parentais e sim cenas ousadas e muita, mas muita putaria e sacanagem.

Será que os homens reagiriam com naturalidade? Independente da resposta, uma palavra de uma mulher sobre A Substância vale mais do que qualquer texto sobre o filme escrito por um homem.

Inclusive este que acaba aqui.

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Written by Maurício Targino

Pai de meninos, marido de mulher, limpador de caixa de areia de gatas e datilografista.

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