Chico Bento, a Goiabeira e o que ainda nos resta de humanidade
Chico Bento demorou a virar filme — sabe-se se lá se por opção de seu criador, Mauricio de Sousa, ou de um país que nunca soube explorar seus próprios fenômenos culturais — mas, enfim, o mais brasileiro dos personagens dos quadrinhos ganhou um longa-metragem para chamar de seu: Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa.
É difícil não se identificar com o menino caipira, mesmo para quem jamais esteve na roça ou subiu em uma árvore. E o filme captura esse sentimento logo de início, quando Chico Bento pede para que Giselda, sua galinha, o “ajude” a escolher o que vestir, numa clara alusão à sua “prima” da cidade, a Mônica. Muda apenas a cor e a peça de roupa.
A quebra da quarta parede e uma inesperada referência a um clássico de Stanley Kubrick selam de vez o vínculo entre protagonista e espectador. A trama, simples como qualquer uma das milhares de histórias do Chico Bento, gira em torno da construção de uma estrada asfaltada na Vila Abobrinha, onde vivem os personagens.
Chico Bento, a princípio, não está preocupado com os impactos ambientais da estrada, mas apenas com o fato de que a Goiabeira do Nhô Lau será derrubada. Goiabeira que não por acaso está no título do filme e se o leitor ou leitora não entender o porquê, repense sua vida ou amaldiçoe seus pais por não fazer de Chico Bento parte de sua infância.
No filme, a tal goiabeira está longe de ser uma árvore frondosa e exuberante, mesmo para os discretos padrões das goiabeiras. E é justamente essa discrição que multiplica sua força dramática. Isolada e sem outras árvores ao redor, ela é metáfora perfeita da natureza que persiste mesmo diante de sua iminente destruição.
Para além dos simbolismos, Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa conta com atuações igualmente poderosas. Interpretações que poderiam facilmente se perder no histrionismo — afinal, estamos falando de personagens de quadrinhos — são conduzidas de forma segura e cativante.
Elogiar o trabalho de Isaac Amendoim no papel de Chico Bento é chover no molhado. Sendo assim, vale destacar o antipático Genesinho, menino rico interpretado pelo ator Enzo Henrique. O nome e o fato de o ator mirim ser natural de Balneário Camboriú tornam tudo ainda melhor.
Cada aparição de Genesinho desperta a vontade de que Chico Bento apele para meios ditos não-civilizados para resolver suas diferenças com o rival. Não se vê ali uma criança, mas a continuidade da opressão exercida por seu pai, o Coronel Agripino, aliada ao conformismo dos adultos da Vila.
Desejar que uma criança saia no braço com outra, mesmo em um filme, pode parecer doentio. No contexto de Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, no entanto, é apenas uma demonstração de que ainda nos resta um pouco de humanidade, mesmo que em sua pior expressão.
Por outro lado, as lágrimas de Chico Bento diante da goiabeira, bem como sua pureza e senso de companheirismo, nos lembram de que sim, podemos ser pessoas ao menos melhores do que Coronel Agripino e Genesinho.
Por mais Chicos Bentos, na arte e sobretudo na vida.
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