David Lynch está morto?

Maurício Targino
5 min readJan 20, 2025

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Eraserhead, primeiro longa de David Lynch

Recebi a notícia da morte de David Lynch como a maioria das pessoas recebe notícias no ano de 2025: pelo aplicativo de mensagens instantâneas da Meta. Imediatamente me vi envolvido na busca por uma resposta para a pergunta: quando foi a primeira vez que ouvi falar de David Lynch?

Em tempos de atenção fragmentada, logo me veio a lembrança de que dias antes eu havia separado um link para rever Eraserhead, filme de estreia de Lynch e um dos primeiros que baixei usando torrent, lá por meados da primeira década do século XXI. Teria sido um artigo sobre Eraserhead publicado na revista SET no final dos anos 80 a tal primeira lembrança?

Mergulhando um pouco mais nas memórias, talvez Veludo Azul tenha sido citado na mesma revista antes. Na pequena locadora da cidade, Veludo Azul era um dos VHS que sempre estava lá, sempre observado e quase nunca alugado.

O episódio piloto de Twin Peaks era um pouco mais disputado, sempre devolvido sob críticas e nunca recomendado pela balconista. A série de TV só dava para assistir se os episódios fossem gravados, já que passava no domingo à noite, horário proibitivo para quem estudava segunda pela manhã. E por mais que fosse visto e revisto, ninguém sabia direito quem tinha matado Laura Palmer.

O mergulho na memória finalmente encontra um porto seguro na capa de uma edição da já citada revista SET, lançada na reta final de 1990. Trazia uma deslumbrante Isabella Rosselini de cabelos loiros na chamada para a matéria sobre Coração Selvagem, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes naquele ano.

O filme não demorou a ser lançado em VHS e, enfim, pude ver um filme de David Lynch do qual tenho lembranças mais antigas. Mas nem isso é uma certeza, pois talvez Veludo Azul tenha sido visto antes. Afinal, o cinema de David Lynch nunca foi sobre memória, mas sobre sonhos e sensações.

Isabella Rosselini em Coração Selvagem (Reprodução)

David Lynch e a (minha) vida adulta

Quando visto pela primeira vez, Coração Selvagem causou muito mais estranhamento do que prazer. Closes e mais closes de cigarros acendendo e sendo tragados, o uso pouco convencional da música, uma história de amor nada convencional, Diane Ladd com a cara pintada de batom, as gengivas bizarras de Bobby Peru (Willem Dafoe) e, claro, Isabela Rosselini. Era muita informação nova para alguém entrando na adolescência.

Já na vida adulta e morando na cidade grande, vejo Estrada Perdida no cinema. Aí sim a cabeça explode desde os créditos iniciais ao som do David Bowie “techno” e toda a doideira ao longo do filme.

Ali sim, ficou claro que um filme não precisa seguir uma narrativa ou dar maiores explicações. O espectador que se dane para entender. É o tipo de revelação que muda para sempre a forma de encarar a sétima arte.

Depois disso, ficou mais fácil rever Veludo Azul e Coração Selvagem. Mas na sequência de Estrada Perdida, Lynch vem de Uma História Real.

Lembro com clareza de ler a sinopse e ficar indignado com o fato de David Lynch, um dos nossos malucos favoritos, se vendendo ao “cinema humanista” com um filme sobre um velhinho que viaja 500 km pilotando um pequeno trator para fazer as pazes com o irmão.

Saí do cinema em lágrimas, chorei quando revi e nem me atrevo a rever nos dias de hoje sob risco de chorar mais do que nas outras vezes.

Richard Farnsworth estava com câncer terminal nas filmagens de Uma História Real e se matou menos de um ano após terminar o filme (Reprodução)

Inspiração acidental

A popularização das câmeras digitais proporcionou que muitos não-artistas pudessem tirar uma ondinha de cineasta. Acabei indo na onda e cometi alguns vídeos de curta-metragem.

Um deles estava quase pronto quando o computador deu problema e toda a edição de imagem e som foi perdida.

No pequeno quarto dos fundos emprestado por amigos que servia como sala de edição, havia um CD esquecido. Era a trilha sonora de Cidade dos Sonhos, então o filme mais recente do Lynch que eu não tinha visto e não veria por muito tempo.

No processo de reedição, as melodias criadas por Angelo Badalamenti milagrosamente começaram a casar com trechos do curta. Era a música de um filme de David Lynch salvando uma obra que não tinha absolutamente nada a ver com a dele.

De volta ao começo

David Lynch morreu e o plano de rever Eraserhead foi antecipado. Por incrível que pareça, o filme pareceu ainda mais estranho do que a primeira vez que vi.

Assim como o tal artigo publicado na revista SET mencionado lá no início do texto, outros tantos foram escritos antes e depois. Boa parte dos poucos que li buscava, de alguma forma, explicar este filme produzido ao longo de cinco ou oito anos, dependendo da fonte.

A única explicação que encontrei foi a de que a carreira de David Lynch foi uma longa tentativa de superar a bizarrice do seu filme de estreia e nenhum produtor foi capaz de permitir.

No final, o que David Lynch encontrou foi uma completa impossibilidade de levar adiante projetos mais ambiciosos, lançando seu último longa, Império dos Sonhos, em 2006.

Àquela altura, o YouTube já se consolidava apenas um ano após seu lançamento, e é lá que David Lynch segue vivo para além dos seus filmes.

Na plataforma de vídeos é possível encontrar David Lynch tentando falar com uma calcinha na boca, encontrando Carlos Alberto Parreira e Aécio Neves, palestrando sobre meditação na Livraria Cultura ou sendo entrevistado no programa Roda Viva e quase sem falar de cinema.

Dick Laurent está morto. David Lynch, jamais.

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Written by Maurício Targino

Pai de meninos, marido de mulher, limpador de caixa de areia de gatas e datilografista.

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